“Para aqueles que ainda passeiam no jardim”

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via: Paulo Marcelo Gondim Sales

Sinto que somos prisioneiros da realidade. É como se o ar que respiro me prendesse ao mundo em que existo ou acredito existir.

De súbito vem um ímpeto, uma força, algo real para dar-me vida e fazer-me encontrar aquilo que estava tão perdido dentro de mim no oceano de minhas, minhas crenças.

Lavo o rosto, os olhos marejados pelo tempo, cansados de tanto doer. A dor não rarefaz aquilo que acumulamos ao longo de nossas vidas. É o rancor o nosso martírio, o que nos mantém presos no cárcere privado de nossos valores.
Podemos viver o mágico, o especial, o belo, mas insistimos em planejar, em ver adiante, em pré-conceber o que sequer deixamos por si só existir.

Temos opinião sobre tudo, sobre todos. Não é mais a compaixão que nos move, mas sim o desejo de acreditar, de entender, de dominar. De ter.

Não sabemos mais admirar a beleza simples de uma rosa aos campos, do vento que nos acaricia com sua neblina; uma criança, aqueles seres que ainda conseguem acreditar no mundo sem ver.

Somos todos prisioneiros eternos do pensamento, de nosso saber. Perdemos nossa capacidade de enxergar o mágico, de experimentar o novo. Quantas vezes você provou algo pela primeira vez?

Trago boas novas. Nem tudo está perdido. É a última vez que pensamos nisso.

É possível aquecer uma lareira de fé, acreditar no mágico, viver o impossível. Somos todos escritores velejando pelas páginas de nossa história e não importa de onde viemos, mas para aonde vamos. Somos o que deixamos crer e acreditamos naquilo que vivemos. Não podemos deixar que isso apague nossa luz e nos impeça de enxergar o belo. O essencial é invisível aos olhos do corpo, mas claro e reluzente aos olhos da alma.

Nossa única esperança é abrirmos o coração, a janela espiritual que nos traz ao belo e ao novo. Somos grandes jardineiros do planeta em que vivemos, da verdade em que acreditamos para o destino que acreditamos escolher.

Não é a vida que te escolhe; os oceanos não nasceram para ser escolhidos.

Acho que se aproxima uma tempestade. Tenho medo, não sei o que pode acontecer. Temos que ficar atentos, planejar, estar prontos para nosso fim. O mundo está cada dia mais perigoso e as pessoas cada vez mais egoístas e sarnentas.

É como uma peste que põe a perder toda uma era. Era ou costumava ser.
Mas a Lei está aí para isso; somos tudo isso e mais um pouco. Somos civis, pessoas de bem.

Acho que me perdi; chega então a tempestade. Não há nada mais o que se fazer, a não ser morrer e agonizar em nossa perda. A criança cai de seu berço, nunca mais será a mesma. Somos adultos, é tarde demais para se acreditar no mágico.

Mas acredito que ainda haja um criança; em algum lugar há de haver. São nossos filhos, nossos pais, nossos amigos e irmãos. Dentro deles há de haver um rastro de nós. Não que sejamos irresponsáveis, é claro. Tudo está sob controle, o barco navega, a vida prossegue, a dor reconforta. Queria ser criança.

Estamos presos, é triste dizer isso. Presos à vida que escolhemos, ou que por ela fomos escolhidos.

As ondas batem no verão em vão e estamos sós, demasiadamente sós na praia ofegantes e perdidos frente a tamanho esplendor. Isso nos traz dor; dor por não sermos capazes de tragar toda a beleza mágica desta vida. O Universo é grande demais, Deus é grande demais.

Acho que somos infinitos, infinitamente perdidos; crianças a passear no maravilhoso jardim de nós mesmos.

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Um comentário sobre ““Para aqueles que ainda passeiam no jardim”

  1. Amanda

    “Mas acredito que ainda haja um criança; em algum lugar há de haver. São nossos filhos, nossos pais, nossos amigos e irmãos. Dentro deles há de haver um rastro de nós. Não que sejamos irresponsáveis, é claro. Tudo está sob controle, o barco navega, a vida prossegue, a dor reconforta. Queria ser criança.”

    Texto interessante.

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