A prisão do precisar

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via: Paulo Marcelo Gondim Sales

Precisar é preciso, mas não necessariamente precisamente precisamos.
Precisar é o prenúncio de uma cisão, uma ruptura.
Rompemos o equilíbrio do universo para refazer o universo de nós mesmos.

Querer de olhos fechados e mente aberta é loucura,
Enquanto querer de mente fechada e alerta ao mundo é ser normal.

Em que escada subiremos para alcançar aquilo o que tanto desejamos?
Que lareira morna de amor e satisfação estará nos aguardando do outro lado do muro?

Precisar, precisão. Precisar é sim uma prisão.
Somos prisioneiros do querer, do pensar, do acreditar.

O universo é possível,
Mas o homem é certo, preciso.

Somos senhores da prisão lógica que criamos
E movidos pelos desejos que por outros foram criados.

Liberdade.

 

Ilustração de Pawel Kuczynski

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Inabalável

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Quando tudo for nada, quando todos não forem ninguém

Quando a derrota for iminente e o fim bater a sua porta

Quando não compreenderes o mundo e o mundo já não te compreender

Vinde a mim, pois de ti nada espero.

 

Serás empurrada e cairás

Serás execrada e chorarás

Serás enganada e iludida

Assim é a vida.

 

Dizer-te-ão mil mentiras e em todas elas acreditarás

Tentarão nos distanciar e talvez até consigam, mas

Mal sabem eles que não se abala o inabalável.

“Para aqueles que ainda passeiam no jardim”

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via: Paulo Marcelo Gondim Sales

Sinto que somos prisioneiros da realidade. É como se o ar que respiro me prendesse ao mundo em que existo ou acredito existir.

De súbito vem um ímpeto, uma força, algo real para dar-me vida e fazer-me encontrar aquilo que estava tão perdido dentro de mim no oceano de minhas, minhas crenças.

Lavo o rosto, os olhos marejados pelo tempo, cansados de tanto doer. A dor não rarefaz aquilo que acumulamos ao longo de nossas vidas. É o rancor o nosso martírio, o que nos mantém presos no cárcere privado de nossos valores.
Podemos viver o mágico, o especial, o belo, mas insistimos em planejar, em ver adiante, em pré-conceber o que sequer deixamos por si só existir.

Temos opinião sobre tudo, sobre todos. Não é mais a compaixão que nos move, mas sim o desejo de acreditar, de entender, de dominar. De ter.

Não sabemos mais admirar a beleza simples de uma rosa aos campos, do vento que nos acaricia com sua neblina; uma criança, aqueles seres que ainda conseguem acreditar no mundo sem ver.

Somos todos prisioneiros eternos do pensamento, de nosso saber. Perdemos nossa capacidade de enxergar o mágico, de experimentar o novo. Quantas vezes você provou algo pela primeira vez?

Trago boas novas. Nem tudo está perdido. É a última vez que pensamos nisso.

É possível aquecer uma lareira de fé, acreditar no mágico, viver o impossível. Somos todos escritores velejando pelas páginas de nossa história e não importa de onde viemos, mas para aonde vamos. Somos o que deixamos crer e acreditamos naquilo que vivemos. Não podemos deixar que isso apague nossa luz e nos impeça de enxergar o belo. O essencial é invisível aos olhos do corpo, mas claro e reluzente aos olhos da alma.

Nossa única esperança é abrirmos o coração, a janela espiritual que nos traz ao belo e ao novo. Somos grandes jardineiros do planeta em que vivemos, da verdade em que acreditamos para o destino que acreditamos escolher.

Não é a vida que te escolhe; os oceanos não nasceram para ser escolhidos.

Acho que se aproxima uma tempestade. Tenho medo, não sei o que pode acontecer. Temos que ficar atentos, planejar, estar prontos para nosso fim. O mundo está cada dia mais perigoso e as pessoas cada vez mais egoístas e sarnentas.

É como uma peste que põe a perder toda uma era. Era ou costumava ser.
Mas a Lei está aí para isso; somos tudo isso e mais um pouco. Somos civis, pessoas de bem.

Acho que me perdi; chega então a tempestade. Não há nada mais o que se fazer, a não ser morrer e agonizar em nossa perda. A criança cai de seu berço, nunca mais será a mesma. Somos adultos, é tarde demais para se acreditar no mágico.

Mas acredito que ainda haja um criança; em algum lugar há de haver. São nossos filhos, nossos pais, nossos amigos e irmãos. Dentro deles há de haver um rastro de nós. Não que sejamos irresponsáveis, é claro. Tudo está sob controle, o barco navega, a vida prossegue, a dor reconforta. Queria ser criança.

Estamos presos, é triste dizer isso. Presos à vida que escolhemos, ou que por ela fomos escolhidos.

As ondas batem no verão em vão e estamos sós, demasiadamente sós na praia ofegantes e perdidos frente a tamanho esplendor. Isso nos traz dor; dor por não sermos capazes de tragar toda a beleza mágica desta vida. O Universo é grande demais, Deus é grande demais.

Acho que somos infinitos, infinitamente perdidos; crianças a passear no maravilhoso jardim de nós mesmos.

Capítulo I

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22 de novembro, acordei…

Abro os olhos e me vejo em um lugar estranhamente familiar.

“Será que… Não, de novo não…”

Fecho os olhos e os abro novamente na esperança de estar vivendo apenas mais um sonho lúcido… Nada feito.

Na mesa de cabeçeira, percebo meus óculos. Às vezes preciso deles para enxergar.

“É, não estou sonhando.”

Sinto um movimento às minhas costas. Quem será? A dúvida me desperta e tento recordar a noite anterior: Escuro, definitivamente escuro… Uma noite escura. Flash, pessoas… Flash, uma multidão… Flash, mais uma fã no camarim, loira. Ou seria morena?

Uma mão boba percorre minha cintura em busca de algo… “Eu quero… De novo… Agora…” Um doce gemido angelical me faz duvidar de minha anterior conclusão…

Melhor voltar a dormir para ter certeza de que não estou sonhando…

Graciliano Ramos sobre o infinito

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Dou-me de presente todas as ideias. Só não me dou de presente a ideia de infinito. Não me acostumei em vida a justificar qualquer hierarquia, não me acostumei a pensar a desigualdade.

A relação do homem com o infinito não passa pelo campo do saber. O infinito é um desejo que se nutre de sua própria fome de… infinito!

Eu, um metafísico?! De jeito nenhum. Encantam-me os paradoxos. Ou melhor: sou vítima dos paradoxos.

Se levanto o punhal para assassiná-los, os paradoxos zombam de mim. Quanto mais zombam de mim, mais os admiro, por sua inconsistência sedutora.

Ah! Os paradoxos!… Tento corrigi-los. Ossos do ofício de quem foi um dia revisor de jornal!

Sobre o autor: Graciliano Ramos

Autor brasileiro, chegou a ser prefeito de Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas. Uma de suas principais obras é “Vidas Secas”, que retrata a vida dos retirantes nordestinos.

fonte: http://tvcultura.cmais.com.br/provocacoes/poemas-e-textos/pgm-144-paradoxos-29-06-2003